As doenças isquêmicas do coração e o acidente vascular cerebral (AVC) estão entre as principais causas de morte na América Latina (ver Capítulo 3). Essas doenças acarretam custos substanciais para a saúde, a economia e a sociedade, tanto por causa da mortalidade prematura quanto da incapacidade de longo prazo entre os sobreviventes. Nas últimas décadas, os resultados após o infarto agudo do miocárdio (IAM) e o AVC melhoraram em muitos países, apoiados por avanços nas tecnologias médicas e nos protocolos de tratamento, incluindo terapias para redução de lipídios e pressão arterial, trombólise e angioplastia (OECD, 2015[1]). As taxas de mortalidade intra-hospitalar em 30 dias para IAM e AVC são indicadores amplamente utilizados da qualidade dos cuidados agudos. Estas medidas refletem a eficácia e a prontidão das respostas de emergência e das vias de tratamento hospitalar, incluindo o diagnóstico rápido, o acesso a terapias de reperfusão e o transporte coordenado do paciente. Ao mesmo tempo, as taxas de mortalidade também podem ser influenciadas por características do paciente, como a gravidade do caso, bem como por diferenças nas práticas de internação.
Para IAM, as taxas de mortalidade hospitalar padronizadas por idade e sexo em 30 dias no Paraguai (24,2%), México (22,6%) e Peru (19,9%) são substancialmente maiores do que a mortalidade média da OCDE (6,5%). Equador (10,9%) e Chile (8,8%) relatam mortalidade acima da média da OCDE, mas dentro da faixa da OCDE, enquanto Costa Rica (6,8%) e Colômbia (5,6%) estão mais próximas ou abaixo do parâmetro de referência da OCDE (Gráfico 7.9).
Há também diferenças importantes entre os países nas taxas de fatalidade em 30 dias após a internação por acidente vascular cerebral isquêmico (Gráfico 7.10). O Peru relata a menor taxa de mortalidade em 30 dias (2,5%). No entanto, essa medida está consideravelmente abaixo dos resultados da literatura publicada, onde uma taxa de letalidade hospitalar de 6,9 foi reportada em 2017 (Labán-Seminario, Carrillo-Larco and Bernabé-Ortiz, 2022[2]). Embora outros fatores, como a alta incidência de primeiros AVCs na população geral peruana, também possam contribuir para taxas mais baixas (Lazo-Porras et al., 2022[3]), essa medida deve ser interpretada com cautela devido à qualidade e comparabilidade das práticas de registro e notificação. A Colômbia (6,1%) e o Equador (7,8%) estão pouco abaixo da média da OCDE (8,7%). A taxa do Chile (8,8%) está próxima da média da OCDE, enquanto o Paraguai (11,8%), a Costa Rica (15,3%) e o México (17,0%) relatam mortalidade significativamente mais elevada.
A mortalidade após AVC hemorrágico é, como esperado, consideravelmente maior do que a de AVC isquêmico em todos os países (Gráfico 7.11). México (30,6%), Paraguai (25,6%), Costa Rica (25,3%) e Chile (24,7%) relatam taxas acima da média da OCDE (23,4%). Em contrapartida, o Equador (17,0%) e o Peru (11,4%) apresentam taxas de mortalidade mais baixas.
Embora os países da ALC tenham progredido na redução do ônus das doenças cardiovasculares, é necessário dar maior ênfase à melhoria da qualidade e da consistência dos cuidados agudos. A melhoria dos resultados cardiovasculares e cerebrovasculares exige uma abordagem coordenada e centrada na pessoa, que abranja prevenção e detecção precoce, cuidados primários fortes e preventivos, encaminhamento oportuno aos serviços de emergência e o uso consistente de protocolos clínicos atualizados e baseados em evidências (OECD, 2025[4]). O reforço dos sistemas de informação em saúde e da capacidade analítica é essencial para o monitoramento de rotina e a comparabilidade internacional. No entanto, apenas sete países da ALC conseguem atualmente relatar indicadores comparáveis de qualidade do atendimento para IAM e AVC, e mesmo essas medidas deixam de fora aspectos importantes da gestão aguda e dos cuidados pós-alta (ver caixa abaixo). Além disso, indicadores importantes, como o acesso à trombólise, a serviços de hemodinâmica e a unidades especializadas em acidente vascular cerebral, são essenciais para avaliar com precisão o desempenho no atendimento às condições cardiovasculares agudas, mas ainda são limitados na região. A interpretação dos indicadores apresentados também exige cautela: as diferenças observadas podem refletir variações no acesso aos serviços de emergência e hospitalares, bem como nas práticas de internação, registro e codificação. Por exemplo, taxas de mortalidade muito baixas em alguns países (como o Peru) podem indicar, em parte, barreiras de acesso ou internação hospitalar seletiva, em vez de melhores cuidados.