Para ter algum impacto político, as contas de saúde devem ser totalmente institucionalizadas e seus resultados amplamente disseminados. Este capítulo destaca como a elaboração das contas de saúde no Brasil pode ser fortalecida para liberar seu potencial por completo. Com base nas melhores práticas dos países da OCDE, discute-se como a governança da elaboração das contas de saúde poderia ser organizada, bem como alguns aspectos técnicos de seu processo de elaboração, com o objetivo de traçar um caminho para a plena institucionalização das contas de saúde no Brasil. Também são apresentados exemplos de estratégias abrangentes de disseminação desenvolvidas na OCDE para maximizar o impacto das contas de saúde.
Institucionalização das contas de saúde no Brasil
7. Fortalecimento das contas de saúde no Brasil: institucionalização, governança e impacto político
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As contas de saúde servem como uma ferramenta vital para informar as políticas de saúde, permitindo a tomada de decisões baseadas em evidências, a alocação de recursos e o monitoramento do desempenho do sistema. Entretanto, para que seu potencial seja plenamente realizado, a elaboração deve ser sistematicamente institucionalizada e seus resultados devem ser disseminados de maneira ampla. No Brasil, com base nos esforços existentes, é possível obter mais progresso aproveitando as experiências de outros países que fortaleceram com sucesso suas contas de saúde.
Uma elaboração bem estabelecida de contas de saúde garante consistência, comparabilidade e sustentabilidade na análise. Ela também facilita a integração com a formulação de políticas econômicas e de saúde mais amplas. Igualmente importante é a divulgação de contas de saúde para formuladores de políticas públicas, pesquisadores e o público em geral, promovendo transparência e debate informado sobre financiamento e gastos em saúde.
A partir da experiência de cerca de 12 países da OCDE, é possível identificar boas práticas e lições essenciais que podem orientar os esforços do Brasil para fortalecer as contas de saúde (OECD, 2025[1]). Essas percepções ressaltam a importância de assegurar mandatos legais e institucionais, fomentar a colaboração entre agências, investir em capacidade técnica e desenvolver estratégias de comunicação acessíveis ao público. Ao incorporar esses elementos, o Brasil poderá ampliar ainda mais a eficácia das contas de saúde, contribuindo, em última instância, para políticas de saúde mais eficientes e equitativas.
7.1. Institucionalização: criação de uma base sólida
Copy link to 7.1. Institucionalização: criação de uma base sólidaA institucionalização adequada das contas da saúde é um passo essencial para garantir a produção regular de dados de alta qualidade sobre despesas e financiamento de saúde. Nesse contexto, a governança do processo de elaboração, os aspectos técnicos do processo de elaboração e a divulgação dos resultados, incluindo seu uso para informar a criação de políticas, são domínios fundamentais. Embora não exista uma abordagem universal para a institucionalização das contas de saúde, as experiências dos países da OCDE destacam algumas boas práticas que podem orientar os países na adaptação de suas estruturas às particularidades dos sistemas de saúde, das bases de dados e estruturas administrativas (OECD, 2025[1]). Para o Brasil, o fortalecimento dos acordos institucionais e dos mecanismos de governança será fundamental para garantir a sustentabilidade, a confiabilidade e a relevância política das contas de saúde.
7.1.1. Governança e acordos institucionais adequados
Uma estrutura de governança bem estruturada é essencial para garantir a credibilidade e a sustentabilidade das contas de saúde. Diferentes países adotaram modelos institucionais variados, cada um com vantagens e desvantagens.
Uma abordagem é atribuir a responsabilidade pela prestação de contas de saúde ao Ministério da Saúde, garantindo que os dados de despesas estejam intimamente ligados às discussões sobre políticas no setor. Isso pode facilitar respostas rápidas às necessidades políticas emergentes e alinhar as contas de saúde com objetivos estratégicos mais amplos. No entanto, os ministérios podem não ter a experiência técnica, a capacidade analítica financeira ou a perspectiva intersetorial necessária para uma análise abrangente.
A principal alternativa é que os países atribuam a elaboração das contas de saúde aos seus Institutos Nacionais de Estatística (INEs), que geralmente oferecem sólido conhecimento técnico, consistência metodológica e estabilidade institucional de longo prazo. Por outro lado, os INEs podem não ter uma conexão tão próxima com os formuladores de políticas públicas de saúde, o que pode limitar o uso direto das contas de saúde na tomada de decisões.
Outra opção é institucionalizar as contas de saúde dentro de agências independentes de saúde ou por meio de colaborações multi-institucionais envolvendo ministérios da saúde, institutos de estatística e instituições acadêmicas. Esses modelos híbridos podem otimizar as forças de diferentes instituições, assegurando tanto o rigor técnico quanto a relevância política. No entanto, eles exigem mecanismos de coordenação bem definidos para evitar a duplicação de esforços e garantir a prestação de contas.
Um fator essencial para assegurar a sustentabilidade das contas de saúde é a existência de um mandato legal ou regulatório para sua elaboração, exigida por lei em muitos países, o que proporciona uma base estável para financiamento, alocação de pessoal e acesso a dados. Uma base legal ou um mandato também pode facilitar a cooperação com provedores de dados, como seguradoras e prestadores de saúde. Embora alguns países mantenham a elaboração robusta das contas de saúde sem legislação formal, o forte compromisso institucional continua sendo essencial para o sucesso a longo prazo.
7.1.2. Sistemas de dados robustos e acessíveis
A elaboração das contas de saúde depende da integração de dados provenientes de diversas fontes, incluindo registros de despesas governamentais, sinistros de seguros, pesquisas domiciliares e relatórios do setor privado. Estabelecer e manter relações sólidas com os provedores de dados e demais partes interessadas é fundamental para garantir a integridade, precisão e atualidade das informações.
Em muitos países, a obtenção de dados baseia-se em acordos informais com os detentores dessas informações. Embora isso possa proporcionar flexibilidade, a dependência da cooperação voluntária pode resultar em inconsistências ao longo do tempo. Para mitigar esse risco, alguns governos estabeleceram acordos formais de compartilhamento de dados, especialmente com prestadores de saúde privados e operadoras. Eles ajudam a padronizar a comunicação de informações, melhorar a confiabilidade dos dados e garantir atualizações regulares.
Vários países da OCDE também criaram grupos de especialistas em contas de saúde, compostos por profissionais de agências governamentais, do meio acadêmico e de diversas organizações independentes atuantes na área da saúde. Esses grupos oferecem orientação técnica, dão orientações sobre melhorias metodológicas, dão suporte à interpretação dos dados e também podem contribuir para assegurar a qualidade dos resultados das contas de saúde. Igualmente importante, eles ajudam a construir confiança entre as partes interessadas e garantem que essas contas reflitam a realidade do sistema de saúde.
Além do papel técnico, os grupos de especialistas também podem contribuir para aumentar a transparência e a legitimidade, facilitando revisões por pares e mecanismos de feedback. Esse processo fortalece a credibilidade das contas de saúde, tornando-as mais propensas a serem utilizadas em discussões políticas e debates públicos.
7.1.3. Processos técnicos claros e capacidade suficiente
O processo técnico de elaboração das contas de saúde varia entre os países, moldado por diferenças nas estruturas administrativas, na disponibilidade de dados e na cultura institucional. Entretanto, as melhores práticas indicam vários princípios fundamentais que sustentam uma elaboração eficiente e sustentável:
Procedimentos operacionais claros: um ciclo de produção bem definido garante que a coleta, a validação, o tratamento e a análise dos dados sejam realizados de forma sistemática. Um cronograma estruturado ajuda a coordenar esforços entre instituições e evita atrasos na publicação.
Padronização com flexibilidade: embora as contas de saúde devam seguir diretrizes estabelecidas para consistência, elas também devem permitir melhorias contínuas. Estudos regulares para atualizar fontes de dados, classificações e metodologias são cruciais para aumentar a precisão.
Capacidade e infraestrutura adequadas: uma equipe exclusiva com experiência em economia da saúde, estatística e ciência de dados é essencial para elaborar contas de saúde de alta qualidade. Além disso, o investimento em sistemas de TI e ferramentas de gerenciamento de dados pode melhorar a eficiência e reduzir erros.
Garantia de qualidade robusta: a implementação de verificações de validação em todas as etapas do processo de elaboração garante a confiabilidade dos dados. Revisões por pares, auditorias externas e verificações de consistência automatizadas aumentam ainda mais a precisão.
Documentação abrangente: o registro de decisões metodológicas, fontes de dados e métodos de cálculo garante a continuidade e a memória institucional. Isso é importante sobretudo para mitigar interrupções devido à rotatividade de funcionários ou mudanças organizacionais.
Em última análise, o objetivo da institucionalização das contas de saúde é garantir seu uso generalizado na formulação de políticas públicas para o setor. Embora as equipes de contas de saúde possam ter influência direta limitada sobre decisões políticas, o envolvimento proativo com as principais partes interessadas – como autoridades do Ministério da Saúde, parlamentares, representantes da sociedade civil, organizações profissionais de saúde, operadoras e prestadores de saúde – pode aumentar bastante seu impacto. Ao promover o diálogo e a colaboração, esses esforços podem estimular uma maior incorporação dos dados das contas de saúde nas políticas públicas, gerando, consequentemente, demanda por análises mais detalhadas de seus gastos. Isso, por sua vez, fortalece um ciclo virtuoso: o uso cada vez maior das contas de saúde impulsiona novos investimentos em sua qualidade e relevância, reforçando o papel como instrumento essencial para a tomada de decisões baseada em evidências no setor da saúde.
7.1.4. A trajetória progressiva para o Brasil: institucionalizando contas de saúde
Com a elaboração do manual de contas de saúde e as últimas estimativas dos gastos na área para 2022, o Brasil fez progressos notáveis no desenvolvimento de contas de saúde. Com base na experiência da última década e na iniciativa renovada, o país está em uma posição favorável para institucionalizar a produção dessas contas em sua totalidade. Os principais desenvolvimentos apontam para um forte potencial de sucesso, à medida que o país caminha para uma abordagem mais estruturada e sustentável.
Um sinal animador é o forte apoio de formuladores de políticas públicas de alto nível dentro do governo brasileiro para elaborar e usar esses dados regularmente. Uma oficina sobre contas de saúde em junho de 2024, iniciada pelo Secretário de Ciência, Tecnologia e Inovação do Ministério da Saúde juntamente com o Presidente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Presidente da Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (EBERSH), e uma apresentação de alto nível da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) e da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) demonstraram um claro comprometimento do setor público com a iniciativa. O evento reuniu um grupo diversificado de partes interessadas, incluindo representantes de estados, municípios, agência de plano de saúde privado, vários ministérios federais e acadêmicos, indicando um interesse amplo e engajado no fortalecimento das contas de saúde e uma base sólida para a institucionalização.
A nova equipe brasileira de contas de saúde, composta por membros de diferentes instituições, traz expertise complementar ao projeto. Liderada por gerentes de projeto do Departamento de Economia e Desenvolvimento em Saúde (DESID) do Ministério da Saúde, o projeto também conta com especialistas da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS)1 e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O acordo prevê que cada órgão lidere as estimativas para um ou mais regimes de financiamento específicos, sendo o Ministério da Saúde responsável pelo SUS e por outros gastos públicos (HF1), a ANS, pelas despesas com planos de saúde voluntários (HF21) e o IBGE, pelo desembolso direto (HF3), cabendo também ao Ministério da Saúde o papel de coordenação. Este tipo de acordo é um tanto incomum em comparação aos países da OCDE, onde a produção de contas de saúde geralmente é concentrada em uma única agência. No entanto, não é diferente da situação na Coreia, onde diversas agências de saúde e seguros, sob a liderança de um professor universitário, elabora coletivamente contas de saúde uma vez ao ano. Nesse esquema, a cooperação entre as diferentes autarquias deve ser formalizada para garantir que cada interveniente tenha responsabilidades claras e definidas.
Muitos países da OCDE que institucionalizaram com sucesso contas de saúde criaram grupos de especialistas para dar suporte à equipe de contas de saúde nos processos de elaboração e disseminação. Esses grupos de profissionais são considerados uma prática recomendada, pois fornecem conselhos valiosos sobre questões metodológicas e estatísticas relacionadas às estimativas de gastos em saúde, bem como sobre as implicações políticas dos resultados. Eles são consultados com frequência antes da divulgação de novos dados, servindo como uma camada adicional de “garantia de qualidade”. A composição desses grupos varia, com especialistas vindos de diversas origens dentro do sistema de saúde.
Na França, por exemplo, o grupo consultivo inclui mais de 50 profissionais de vários ministérios, agências de saúde, associações profissionais, sindicatos, grupos de pacientes e acadêmicos.
O Canadá tem dois órgãos de especialistas distintos: um grupo técnico, composto por peritos em estatística e dados de agências federais e provinciais, e um grupo político que se concentra na interpretação dos resultados das contas de saúde dentro do contexto mais amplo da política de saúde, recomendando estratégias de disseminação e sugerindo futuras áreas de foco.
O Brasil deve considerar a criação formal desse grupo consultivo, aproveitando o sucesso da oficina realizada em junho de 2024, que reuniu mais de 80 especialistas de diversas partes interessadas, bem como parcerias já estabelecidas. Ao formá-lo, seria benéfico garantir a inclusão das principais partes interessadas, a fim de promover uma abordagem abrangente e inclusiva. Isso poderia incluir representantes dos estados e municípios (por meio do CONASS e do CONASEMS), de outros ministérios federais, como o da Fazenda, prestadores de saúde, profissionais da área, bem como pesquisadores e institutos de pesquisa. O foco principal do grupo deve ser a melhoria da qualidade das contas de saúde, mas também a inserção dos resultados no contexto mais amplo do sistema de saúde brasileiro. Dessa forma, o grupo não apenas ofereceria expertise essencial, como também agregaria legitimidade a essa nova área de trabalho, reforçando sua relevância para o desenvolvimento de políticas públicas.
Em muitos países da OCDE, existe uma obrigação legal de elaborar regularmente contas de saúde. Isso se aplica para os estados-membros da União Europeia onde há um mandato baseado na legislação do continente. Mesmo sem um dispositivo supranacional, alguns países incorporam essa elaboração em normas nacionais. Em outros países, como Austrália e Canadá, não há um texto legal específico que imponha a elaboração anual das contas de saúde, mas uma responsabilidade pode ser inferida das missões institucionais dos órgãos encarregados dessa tarefa. Assim, embora não seja um requisito indispensável, um respaldo jurídico pode favorecer a institucionalização bem-sucedida das contas de saúde. Naturalmente, esse respaldo deve vir acompanhado de compromissos financeiros de médio e longo prazo, além de decisões adequadas sobre pessoal, para garantir a manutenção contínua de uma equipe dedicada a essa função.
Por fim, uma lição das implementações-piloto anteriores de contas de saúde no Brasil é que a metodologia de configuração das contas de saúde, as fontes de dados utilizadas e as técnicas de estimativa aplicadas devem ser documentadas por completo. Até o momento, essa etapa estava ausente e representa um dos desafios para a transição de uma implementação-piloto para uma institucionalização completa. A maioria dos países da OCDE com trajetória consolidada na elaboração de contas de saúde já conta com processos definidos para cada etapa da elaboração. Normalmente, esses procedimentos estão registrados em diferentes documentos, permitindo que novos integrantes da equipe adquiram rapidamente o conhecimento necessário para garantir a continuidade do trabalho. No entanto, em muitos desses países, houve certa estabilidade entre os principais membros das equipes responsáveis. Com a retomada das atividades nessa área, o Brasil estabeleceu como prioridade a documentação abrangente do processo produtivo e – paralelamente à elaboração de novas estimativas de gastos em saúde – a equipe responsável redigiu um manual interno que deve permitir que novos profissionais compreendam rapidamente os conceitos fundamentais, as classificações e categorias utilizadas, as fontes de dados disponíveis e as metodologias de estimativa aplicadas. Isso é louvável. Embora a Costa Rica esteja atualmente envolvida em uma atividade semelhante, a maioria dos países da OCDE não tem um “inventário centralizado”, mas depende de vários documentos ou arquivos distintos. Ainda seguindo as melhores práticas, o Brasil também considera a publicação de um documento metodológico para acompanhar a divulgação dos novos dados. Essa iniciativa confere maior legitimidade às informações e pode servir como instrumento para aprimorar a qualidade no futuro. O México, por exemplo, publica anualmente um relatório detalhado sobre a qualidade de suas contas de saúde, utilizando também um sistema de semáforo para classificar as fontes de dados (e os respectivos fornecedores) com base em indicadores como pontualidade, completude, consistência com as classificações e validade das informações (Gobierno de México, 2025[2]).
7.2. Disseminação: maximizando o impacto
Copy link to 7.2. Disseminação: maximizando o impactoA revisão da OCDE (OECD, 2025[1]) aponta para o desenvolvimento de estratégias de disseminação para maximizar o impacto das contas de saúde e a sua utilização política como um componente fundamental para uma institucionalização bem-sucedida. As melhores práticas sugerem produzir um conjunto de resultados para diferentes usuários para maximizar o alcance e o impacto. Isso deve variar desde comunicados à imprensa e tabelas de dados correspondentes para aumentar a conscientização e comunicar resultados de alto nível a um público amplo até análises mais aprofundadas, que também ampliam o contexto político dos gastos em saúde para envolver públicos especializados, incluindo ministérios da saúde e tomadores de decisão. É claro que a natureza dessas análises precisa se concentrar em tópicos de alta relevância para o país para poder contribuir para os debates políticos. A organização de eventos de alto nível para publicação e discussão dos resultados das contas da saúde provou ser uma forma eficaz de aumentar ainda mais a conscientização e a relevância dos resultados dessas contas.
O Brasil já divulgou resultados de suas contas de saúde no passado (Ministério da Saúde, Fiocruz, 2018[3]; Brasil. Ministério da Saúde, 2022[4]), mas essas publicações não parecem ter alcançado o efeito desejado de aumentar a conscientização sobre os dados entre as principais partes interessadas (assim como entre o público em geral), o que, eventualmente, impulsionaria seu uso em políticas públicas. Essas publicações apresentaram os primeiros resultados da alocação dos gastos do SUS para os anos de 2010 a 2014 (Ministério da Saúde, Fiocruz, 2018[3]) e, posteriormente, expandiram a análise para o total dos gastos em saúde nos anos de 2015 a 2019 (Brasil. Ministério da Saúde, 2022[4]), com base nos padrões contábeis do SHA 2011. No entanto, houve menor ênfase na discussão desses resultados no contexto dos debates atuais de políticas de saúde no Brasil e na oferta de uma perspectiva internacional.
Nesse sentido, o país poderia aprender com estratégias de disseminação de vários países da OCDE. A França, por exemplo, desenvolveu uma estratégia de divulgação muito elaborada para maximizar o impacto das contas de saúde no país (Quadro 7.1). Ela combina a publicação anual de um relatório substancial no qual as últimas tendências de gastos em saúde são colocadas em um contexto mais amplo de política de saúde com discussões de alto nível sobre questões políticas em andamento. O momento da divulgação está intimamente alinhado com o ciclo orçamentário para ter o máximo impacto político logo antes do início da discussão parlamentar do orçamento da saúde. Por fim, a publicação das contas de saúde é apresentada e debatida em uma reunião anual da comissão de contas de saúde (um grupo composto por mais de 50 especialistas em financiamento da saúde), geralmente com a presença do ministro responsável pela saúde, o que reforça a percepção pública da importância desse trabalho.
Para disseminar o conhecimento sobre as contas de saúde na comunidade acadêmica e obter maior legitimidade para os dados e metodologias aplicadas, especialistas em contas de saúde na Coreia e nos Estados Unidos publicam regularmente resultados e análises em periódicos científicos revisados por pares (Jeong, 2011[5]; Martin et al., 2025[6]).
Diversos países, como Austrália e Canadá, também desenvolveram uma série de produtos para divulgar os resultados das contas de saúde a diferentes públicos. Esses materiais vão desde infográficos e postagens em redes sociais com mensagens-chave até análises detalhadas destinadas a especialistas em políticas de saúde ou dados.
Quadro 7.1. O lançamento anual do Comptes de la santé na França
Copy link to Quadro 7.1. O lançamento anual do <em>Comptes de la santé </em>na FrançaA Direction de la Recherche, des Études, de l’Évaluation et des Statistiques (DREES) do Ministério da Saúde da França é responsável pela produção de contas da saúde há muito tempo. Os dados de despesas mais recentes, incluindo uma série temporal revisada, geralmente são publicados em setembro do ano seguinte, em conjunto com uma análise muito detalhada dos dados de gastos em saúde, colocados no contexto de discussões políticas importantes. A edição de 2024 da publicação sobre a contabilidade da saúde francesa teve quase 300 páginas (DREES, 2024[7]).
O momento da divulgação é importante e é ditado não apenas pela disponibilidade de dados, mas também ter um impacto tangível nas discussões sobre políticas de saúde: especificamente, neste final de setembro, o Projeto de Lei de Financiamento da Seguridade Social (Projet de loi de financement de la sécurité sociale (PLFSS)) para o ano seguinte é adotado no Conselho de Ministros antes de ser discutido no parlamento. O relatório anual Comptes de la Santé é baseado principalmente na versão francesa específica das CNS e abrange análises detalhadas das tendências de cada serviço de saúde e acordo de financiamento individual (tanto em preços correntes quanto constantes). Também inclui uma comparação relevante dos gastos em saúde franceses em um contexto internacional para o qual a estrutura SHA 2011 é usada (as diferenças entre os dados das CNS e do SHA da França também são explicadas com mais detalhes no relatório). Algumas informações metodológicas sobre os cálculos de despesas com saúde também são abordadas nos anexos do relatório. Por fim, a publicação sempre inclui alguma análise pertinente e complementar de políticas de saúde que vão além dos gastos em saúde. Na edição de 2024, por exemplo, a análise explorou as implicações de uma reforma política para reduzir copagamentos de produtos médicos específicos e a evolução da compensação por licença médica.
A publicação é divulgada no site do Ministério da Saúde para coincidir com a reunião anual da comissão de contas da saúde (Commission des comptes de la santé). Essa reunião é um evento que dura metade de um dia, em geral aberto pelo ministro, e conta com a presença de membros da comissão e especialistas convidados (cerca de 50 a 80 pessoas). Além de apresentar e discutir as conclusões dos últimos dados das contas da saúde, a pauta inclui itens complementares que abrangem tópicos atuais de políticas de saúde (como assistência odontológica, saúde mental, cuidados de longo prazo). A OCDE participa regularmente das reuniões anuais da Comissão, fornecendo uma perspectiva internacional sobre alguns dos resultados e tópicos discutidos.
7.2.1. Contas de saúde do Brasil: lições importantes para o sucesso
Em resumo, o Brasil tem uma oportunidade valiosa de se inspirar nos países da OCDE e tomar medidas decisivas para institucionalizar totalmente a produção de contas de saúde e desenvolver uma estratégia abrangente de disseminação. Isso inclui a criação de uma base jurídica e financeira sólida para a compilação regular de contas de saúde de alta qualidade que respondam às necessidades e prioridades nacionais. O objetivo deve ser produzir contas anuais de saúde oportunas e relevantes, que sejam providas de recursos sustentáveis e sistematicamente incorporadas à infraestrutura de informações de saúde do país. Felizmente, o Brasil não está começando do zero – ele pode desenvolver o trabalho existente e alavancar suas parcerias estabelecidas com as principais partes interessadas. Um passo crucial que resta é formalizar o processo por meio de um mandato legal, garantindo continuidade e capacidade de longo prazo. Além disso, o desenvolvimento de um manual nacional sobre a metodologia usada no Brasil é um recurso valioso que pode dar suporte à consistência e facilitar a transição durante mudanças de pessoal ou de funções institucionais.
Olhando para o futuro, o Brasil também deve explorar o desenvolvimento de um detalhamento regional dos gastos em saúde. Isso aumentaria muito o poder analítico e a relevância política das contas de saúde. Grandes países da OCDE, como Austrália, Canadá e Estados Unidos, demonstraram o valor das comparações subnacionais para informar políticas e abordar disparidades regionais. No caso do Brasil, onde as disparidades socioeconômicas e de saúde entre as regiões são ainda mais pronunciadas, as contas regionais de saúde podem desempenhar um papel essencial na orientação de decisões políticas mais equitativas. Notavelmente, outros países da América Latina, como Chile e México, também deram passos importantes ao publicar dados regionais de gastos em saúde, oferecendo modelos úteis que o Brasil pode considerar.
Por fim, para aproveitar plenamente o potencial das contas de saúde, o país deve desenvolver uma estratégia de disseminação coerente, que vincule a divulgação de novos dados a análises oportunas de políticas públicas. Alinhar a publicação de dados às prioridades nacionais de saúde — e apresentá-los em debates de alto nível conduzidos por autoridades sêniores da saúde — pode aumentar a visibilidade e o impacto das contas de saúde de maneira considerável. Uma abordagem de divulgação bem elaborada é essencial não apenas para ampliar o conhecimento sobre os dados, mas também para demonstrar sua utilidade prática, estimulando, assim, uma demanda contínua e o engajamento político. Para ser realmente eficaz, as contas de saúde devem ser estruturadas e comunicadas de forma que dialoguem com o cenário político brasileiro e as expectativas das partes interessadas.
Referências
[4] Brasil. Ministério da Saúde (2022), Contas de saúde na perspectiva da contabilidade internacional : conta SHA para o Brasil, 2015 a 2019, Ipea, https://doi.org/10.38116/978-65-5635-028-8.
[7] DREES (2024), Les dépenses de santé en 2023 - Résultats des comptes de la santé, Direction de la recherche, des études, de l’évaluation et des statistiques, https://drees.solidarites-sante.gouv.fr/sites/default/files/2024-11/CNS24.pdf.
[2] Gobierno de México (2025), SICUENTAS - Gasto Público en Salud, http://www.dgis.salud.gob.mx/contenidos/basesdedatos/da_sicuentas_gobmx.html.
[5] Jeong, H. (2011), “Korea’s National Health Insurance—Lessons From The Past Three Decades”, Health Affairs, Vol. 30/1, pp. 136-144, https://doi.org/10.1377/hlthaff.2008.0816.
[6] Martin, A. et al. (2025), “National Health Expenditures In 2023: Faster Growth As Insurance Coverage And Utilization Increased”, Health Affairs, Vol. 44/1, https://doi.org/10.1377/hlthaff.2024.01375.
[3] Ministério da Saúde, Fiocruz (2018), Contas do SUS na perspectiva da contabilidade internacional: Brasil, 2010-2014, Ministério da Saúde; Fiocruz, https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/contas_SUS_perspectiva_contabilidade_internacional_2010_2014.pdf.
[1] OECD (2025), Boas práticas na institucionalização das contas de saúde: Lições das experiências de 13 países da OCDE, OECD Publishing, Paris, https://doi.org/10.1787/2993093d-pt.
Nota
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