Uma prevenção bem-sucedida dos incêndios rurais assenta numa combinação de intervenções estruturais e medidas organizacionais. As medidas estruturais incluem a gestão de combustível e dos ecossistemas, que reduz o risco e a severidade dos incêndios rurais ao controlar a quantidade e as características dos materiais combustíveis na paisagem. Estas medidas incluem zonas tampão, faixas de gestão de combustível (isto é, faixas de terreno não inflamável junto a povoações ou distribuídas pela paisagem), fogos prescritos e o uso ativo do fogo para a eliminação de resíduos florestais e agrícolas e para a renovação de pastagens (ou seja, queimas e queimadas) (Presidency of the Council of Ministers, 2017[25]) (Ministry of Agriculture, 2014[26]). Em contrapartida, as medidas organizacionais incluem regras de ordenamento do território e normas ou regulamentos de construção. O ordenamento do território pode limitar novos empreendimentos em zonas propensas a incêndios. A regulamentação da construção rege a edificação de bens, como habitações e infraestruturas, para reforçar a resiliência ao fogo (OECD, 2023[5]).
Na sequência dos incêndios de 2017, as avaliações concluíram que a regulamentação para a implementação de medidas estruturais e organizacionais de redução do risco era ineficaz. Embora a regulamentação relativa às faixas de gestão de combustível já fosse utilizada em Portugal muito antes de 2017, as faixas de gestão de combustível ao longo das vias rodoviárias estavam subdimensionadas e, muitas vezes, mal mantidas (Independent Technical Commission, 2018[7]). Além disso, o cumprimento da regulamentação relativa às faixas de gestão de combustível em torno de edificações individuais e de aglomerados populacionais era quase inexistente. Acresce que estas faixas eram frequentemente concebidas de forma isolada, em vez de integrarem um plano abrangente de gestão de combustível à escala da paisagem, reduzindo a sua eficiência (Independent Technical Commission, 2018[8]). As queimas e queimadas extensivas também já eram usadas anteriormente, mas lacunas na fiscalização e nas restrições temporais aplicáveis às queimas e queimadas estiveram na origem de ignições, incluindo os incêndios de 2017 (Independent Technical Commission, 2018[8]). Do mesmo modo, o fogo prescrito à escala da paisagem já era permitido antes de 2017, mas a sua adoção era reduzida, especialmente em áreas caracterizadas por níveis elevados de perigosidade de incêndio rural. A regulamentação da construção centrava-se nos materiais de construção e equipamentos usados no interior dos edifícios, para incêndios com origem nas paredes do próprio edifício.
A regulamentação foi reforçada desde 2017. Os critérios para impor faixas de gestão de combustível em torno dos edifícios foram reforçados, de modo a clarificar as áreas prioritárias (por exemplo, dentro de um raio de 50 metros em torno de edificações isoladas e a menos de 100 metros de aglomerados populacionais com dez ou mais habitações). As sanções por incumprimento duplicaram desde 2018. O fogo prescrito não é permitido em zonas caracterizadas por perigosidade "muito alta" ou "máxima", de acordo com a carta de perigo de incêndio rural, nem quando as condições meteorológicas são propícias à ocorrência de incêndios (Presidency of the Council of Ministers, 2021[27]). Por fim, embora as normas de construção pré-2017 se centrassem na resistência interna ao fogo, as revisões recentes dos regulamentos visam proteger melhor as paredes exteriores contra incêndios rurais e calor extremo. No entanto, estes requisitos aplicam-se atualmente apenas a edifícios novos.
Para promover o cumprimento da regulamentação, Portugal investiu em campanhas de sensibilização do público. A campanha Portugal Chama dirige-se tanto a intervenientes públicos e privados, sensibilizando para as medidas de prevenção de incêndios que podem ser adotadas ao nível local para reduzir o risco de incêndio rural (OECD, 2023[5]). Estas incluem, por exemplo, a limpeza da vegetação em torno de propriedades, o afastamento de pilhas de lenha dos edificados, a instalação de faixas de pavimento não inflamável em torno das habitações para criar zonas tampão, e a solicitação de licenças para queimas queimaduras controladas. A campanha informa também o público sobre as multas aplicáveis por não conformidade, de modo a dissuadir comportamentos de risco. Além disso, o programa Aldeia Segura, Pessoas Seguras, também lançado após os incêndios rurais de 2017, busca reduzir o risco de incêndio através da mudança de comportamentos e da educação pública. Combina medidas de prevenção (por exemplo, gestão de combustível, abrigos de emergência, rotas de evacuação) com medidas de autoproteção (por exemplo, sensibilização e treino de evacuação) (ANEPC, 2026[28]).
Novas ferramentas digitais facilitam a aplicação da regulamentação preventiva. Foi criada uma plataforma digital para permitir aos intervenientes privados solicitar autorização municipal para a realização de queimas, apoiadas por financiamento e assistência técnica. No caso das queimadas extensas, o Instituto Nacional das Florestas (ICNF) assegura que estas são conduzidas sob a supervisão de especialistas. A plataforma constitui uma ferramenta valiosa para identificar potenciais fontes de ignição e antecipar a propagação do fogo. Do mesmo modo, a plataforma SOS Ambiente e Território permite aos cidadãos expor situações que possam violar a legislação ambiental e os instrumentos de ordenamento do território. Foi lançado um programa sobre incendiarismo para compreender melhor os fatores que o motivam visto que este ainda representa cerca de 40% das ignições (AGIF, 2025[10]), e para desenvolver estratégias que reduzam a reincidência.
O quadro regulamentar foi ainda reforçado através de inspeções direcionadas, fiscalização e melhor monitorização. Todos os anos, freguesias de maior risco – subdivisões de um município – são identificadas usando dados sobre ignições, área não ardida e carta nacional de perigosidade para orientar as inspeções de gestão de combustível realizadas pela Guarda Nacional Republicana (GNR) e pelos municípios. Ferramentas avançadas, incluindo imagens de satélite e cartografia digital, são cada vez mais utilizadas para detetar gestão insuficiente da vegetação e queimas não autorizadas, melhorando a precisão da fiscalização. A vigilância foi reforçada através de patrulhamentos mais frequentes, enquanto a plataforma de registos de queimas e queimadas permite uma monitorização quase em tempo real e intervenções direcionadas. Com o apoio técnico e logístico do ICNF, a GNR e a Polícia Judiciária expandiram os seus efetivos de investigadores de incêndio com formação especializada, a fim de identificar fontes de ignição e acompanhar comportamentos como o incendiarismo ou queimas acidentais, informando estratégias de fiscalização. As entidades do SGIFR responsáveis pelas faixas de gestão de combustível e pela supervisão regulamentar – ICNF, GNR e autoridades subnacionais – recolhem e comunicam anualmente dados de cumprimento, reforçando a eficácia e a responsabilização das medidas de redução do risco de incêndio rural.